quarta-feira, 15 de junho de 2011

Texto do dia: Martha Medeiros


 
Outro dia, lendo os comentários aqui do blog, vi que o Roberto comentou sobre como a indiferença é pior que a arrogância e fiquei pensando naquilo. E como uma coisa leva à outra, achei um texto da Martha Medeiros no qual ela fala um pouco sobre a relação entre a indiferença e esses outros sentimentos:


O contrário do Amor

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.



Boa noite!

4 comentários:

  1. Isso de necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna fica depois da barreira do "boredom" (emprestada do Inglês já que enfado não traduz a idéia do sufixo "dom"). As vezes fico pensando se as luzes da modernidade, se um dia cessarem e enquanto não cessam, não nos fazem esquecer que algumas coisas a gente precisa cultivar, ou até responder como cultivo, e que diferentes da luz e sua velocidade de milhares de metros por segundo que presto se vai, ou vem, cultivar está na casa dos eventos sub hertizianos, ou seja, que podem acontecer não em um segundo, mas talvez apenas, e só, uma vez na vida, na esfera desse universo de amor e ódio.

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  2. Depois do que você disse, preciso mostrar um trecho lindo do Pequeno Príncipe:

    - Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita.
    - Sou uma raposa, disse a raposa.
    - Vem brincar comigo, propôs o princípe. Estou tão triste...
    - Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.
    Não me cativaram ainda.
    - Ah! Desculpa, disse o principezinho.
    Após uma reflexão, acrescentou:
    - O que quer dizer cativar ?
    - Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
    - Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
    - É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços...
    - Criar laços?
    - Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo... Mas a raposa voltou à sua idéia:
    - Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
    A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
    - Por favor, cativa-me! disse ela.
    - Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
    - A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!

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  3. ameiii o texto, mt fera depois quero saber aonde vc tem tanta facilidade em achar textos ótimos rsrsrsrs

    Beeeijo

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  4. O segredo é saber o que procurar;)

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